JACQUELINE BLAJCHMAN

Sou Jacqueline, nasci surda mas sempre fui muito atenta ao meu redor, o que talvez tenha feito meus pais não desconfiarem da minha surdez até os meus 4 anos, quando perceberam a fala atrasada. E olhem que situação: meu irmão, que é apenas 1 ano mais novo que eu, é surdo e meus pais descobriram quando ele tinha 1 ano de idade. Fizeram aqueles testes caseiros de bater palmas atrás da criança, e ele não se virava, mas como eu estava sempre atenta e “sentia” alguém atrás de mim, acabava olhando para trás, parecendo ouvinte. 

Com isso, meus pais correram atrás de soluções possíveis. Cheguei a ir para Los Angeles (EUA) algumas vezes para avaliação de otorrinolaringologistas e aparelhos auditivos, visto que nos anos 80/90 não existiam lojas de aparelhos auditivos como existem hoje. Tive sessões de fonoterapia com fonoaudiólogas reconhecidas praticamente todos os dias durante a minha infância, e estudei em bons colégios regulares.

Minha mãe, todo início de ano escolar, trazia uma apostila para os professores da turma que eu entraria, para explicar o que era a surdez, o método utilizado na minha oralização, como tirar e colocar aparelho auditivo, trocar a pilha e como lidar comigo, me colocando para sentar na frente na sala de aula, sempre falar de frente, articular bem as palavras quando eu não entendesse, evitando falar de costas, entre outras medidas.

Sempre fui responsável, esforçada ao extremo, leitora voraz de livros e aprendiz de idiomas. Fiz inglês e espanhol, cursei faculdade de Direito, passei no concurso em uma disputada empresa de Petróleo e Gás do país, e passei na prova da OAB-RJ ainda no 9º período da faculdade. E aqui estou, 11 anos de empresa e como gerente, liderando atualmente uma equipe de 4 pessoas (e já cheguei a liderar 10 pessoas). Já viajei para vários países, me virando muito bem sozinha em diferentes línguas, com culturas e pessoas.

Agradeço muito a meus pais por correrem atrás e me incentivarem em tudo que quis fazer. O céu sempre foi o meu limite.

Hoje, sou casada e tenho um filho de 2 anos e meio, e passo pelos mesmos desafios que a Paula Pfeifer menciona nas postagens com relação ao filho dela. Gostaria de passar uma mensagem aos surdos que ouvem, que não desistam de tentar ouvir, seja com AASI ou IC, que não desistam de cursar uma faculdade e conseguir vagas melhores no mercado de trabalho. Surdez não é limite nem deveria ser limitadora!