DANIELE NETTO

Me chamo Daniele Netto, tenho 22 anos, sou natural de Cuiabá-MT e sou uma surda que ouve!

Minha história com a surdez começou aos 13 anos de idade. Por não escutar o ‘bipe’ do termômetro digital que tínhamos em casa, minha mãe se incomodou e resolveu procurar um médico. Foi aí que descobri que eu tinha uma leve perda auditiva neurossensorial para frequências agudas, mas não era nada para me preocupar, só deveria evitar exposição a sons altos – como qualquer um deve fazer – e repetir os exames caso me sentisse incomodada.

Quatro anos mais tarde, já com 17 anos, percebi que estava tendo mais dificuldade para escutar em certas ocasiões e refiz os exames. Foi quando tive que começar a usar AASI’s (aparelhos auditivos). Para mim foi terrível aceitar isso. Lógico que eu iria usar os aparelhos, pois não queria perder mais a audição, mas fiquei muito abalada. 

Enquanto aguardava receber os aparelhos pelo SUS, passei pela pior fase. Comecei a ler bastante sobre tudo, sabia que a adaptação seria um processo que exigiria paciência e não vou negar que ficava preocupada com o que os outros iam falar. Eu que sempre amei sair, puxar assunto e sempre fui muito comunicativa, comecei a evitar conversas e me isolar para não passar constrangimentos. Não se podia tocar no assunto “surdez” perto de mim que eu desabava em prantos. Proibi meus pais e irmãos a falar sobre o que eu estava passando para os outros, pois não suportaria o olhar de pena de qualquer um. É claro que isso não adiantou.

Meses depois, consegui meus AASI’s, de um modelo extremamente discreto. Embora sentisse uma certa revolta e evitasse usá-los em alguns lugares – por conta de não querer responder perguntas como: “Você é muito surda?”, “Se eu falar assim você me escuta?” -, a adaptação foi mais rápida do que pensei. A qualidade da minha vida melhorou muito e os aparelhos entraram na minha vida no momento certo. Eu estava na luta por uma vaga no curso de medicina e os aparelhos foram essenciais para que eu acompanhasse melhor os cursinhos que frequentei.

Hoje já faz 4 anos e meio que uso os AASIs e é engraçado as voltas que a vida dá. Costumo dizer que a surdez é uma das responsáveis por eu estar realizando meu sonho, pois um episódio foi decisivo na minha vida: um médico que me atendia pelo SUS logo no início da reabilitação auditiva foi bem  grosso durante a consulta. Eu tinha acabado de começar a usar os AASIs, tinha dúvidas, mas ele não respondia minhas perguntas e sequer olhava para mim. Aquilo me deixou péssima, pois fui com muitas expectativas para aquela consulta, uma vez que ele atendia outros familiares meus na rede particular e eu sempre escutei elogios sobre o profissional que era. Foi uma decepção. Saí dali chorando e me lembro de olhar para minha mãe e dizer que um dia eu seria médica e jamais trataria meus pacientes daquele jeito.

Eu tinha tanta vergonha da minha deficiência, tanto medo de não poder seguir a profissão que eu queria que só pensava assim: “E se eu não conseguir auscultar o coração de um paciente?”. Mas hoje estou aqui. Ingressei no início de 2019 na Universidade Federal do Acre (UFAC), no meu tão sonhado curso, com a cota para pessoas com deficiência. E isso jamais diminuirá meu mérito. Obviamente tenho minhas limitações, mas a tecnologia está a meu favor.

Quem me vê, não imagina que sou surda, pois não tenho problemas para falar e o que mais ouço são coisas do tipo “Mas você fala normal. Impossível ser deficiente”. É muito chata a falta de informação das pessoas, pois são raras aquelas que compreendem, de fato, a diversidade que existe na surdez. A perda em agudos me permite ouvir os sons, mas não é toda vez que compreendo. Aprendi leitura labial na marra e assim vou me virando. 

A falta de assistência pelo SUS dificulta bastante a minha vida. Em Cuiabá eu tinha um bom suporte, mas aqui em Rio Branco o programa de saúde auditiva não está funcionando e não tem previsão de retorno dos atendimentos. Por vezes chego em casa com fortes dores de cabeça e, por conta de ruídos, tenho uns zumbidos e faço esforço demais para estar em uma conversa, o cérebro fica irritado com os AASIs. Isso ninguém vê, né? Mas a gente vai vencendo o cansaço.

Contei toda a minha história aqui, mas queria deixar um recado para todos que conheçam alguém que tenha surdez: dê apoio e não deixe de incentivar. Eu tive anjos ao meu lado o tempo todo. Em especial minha mãe, Jairiele, que tanto secou minhas lágrimas e me ‘resgatou’, meu pai, Luiz Henrique, que apesar de ser mais calado, quando falava sobre o assunto comigo me fazia olhar com um pouco mais de razão para os fatos, e meus irmãos Adriane e Fabio, que lidavam com muito humor com a situação e não me deixavam ficar para baixo. Assim como outros amigos muito especiais e o Crônicas da Surdez que me fizeram enxergar que a surdez não era necessariamente um problema.

Quanto ao bipe do termômetro, mesmo com os aparelhos não consigo escutar. Mas é assim que funciona, né? Não dá de ficar 100%, mas estou feliz com a audição que tenho!